Nossa riqueza cultural é realmente impressionante. Basta uma saída pela “terra-brasilis” para se ter uma noção de como as variedades culturais se pluralizam. Sou da Bahia, berço também do meu ministério. Quando cheguei a São Paulo, há sete anos, trouxe na minha bagagem alguns conceitos que tiveram de ser adaptados para a realidade do Sudeste. De volta a Bahia esta semana, mais uma vez me vi imerso na cultura de um povo alegre e “pra cima”, que, como diria meu predileto cantor João Alexandre, “ri até da tristeza”.
Essa variedade cultural é nitidamente presente na igreja. Uma das características marcantes na juventude da Bahia me pareceu, nos dias em que estive com algumas dezenas de jovens no interior de Feira de Santana, a sublimação das experiências místicas e sobrenaturais. Sem igual!
A princípio, fiquei um tanto incomodado com o formalismo de uma galera adolescente. Não que eu nunca tenha visto tal. Eu mesmo, em toda a minha adolescência e juventude, trilhei por este caminho. Minha mãe dizia que eu parecia um adulto em miniatura. Foi mais ou menos o que pensei no início do retiro do qual participei. Mas logo em seguida me convenci de que o perfil desta galera é este mesmo: sua expectativa gira em torno do místico e do espiritual, um tanto diverso do que vejo na juventude de São Paulo.
Durante os dois dias de retiro, ouvi o pregador que dividiu o púlpito comigo asseverar que Deus iria “soprar a cinza do altar” daqueles jovens e iria promover um grande avivamento. Ele falou primeiro. Fiquei preocupado, pois o clima era de uma atmosfera espiritual numa “redoma” alienada da realidade daqueles jovens. Pensei comigo: “estou perdido, pois não falo a mesma língua do pregador”. A mensagem que eu havia preparado era justamente o oposto – diria eu que Deus não nos deixaria alienados numa bolha de espiritualidade, mas que nos faria – como o fez com a mulher samaritana – voltar para a cidade (ou para a nossa realidade) a fim de transformá-la por nossa experiência com Cristo.
Pois bem, antes de mim ainda havia outro pregador. Pregou no mesmo texto que eu tinha por base – João 4. A mensagem, embora em nada assemelhasse ao do amigo avivalista da noite anterior, também versou pela trilha do sobrenatural – o mundo sob o controle de Satanás. Mais uma vez me vi apertado (embora tenha me identificado bastante com a linguagem sóbria e culta do pregador). Como iria eu dizer que podemos viver para Cristo sem precisar fazer “guerra” espiritual?
Finalmente, fui me envolvendo com a “dinâmica” das reuniões.
Compartilhei as minhas preocupações com “Meu Bem” (que ficara em S.Paulo) e ouvi seu sábio conselho: “seja você mesmo”. Preguei. Do meu jeito. Saí feliz, confortável.
Depois da minha palavra, o meu companheiro de púlpito “encerrou” a mensagem – isso mesmo, a minha mensagem! De carona no mesmo texto versou mais uma vez pelo sobrenatural e o clima foi impressionante. Extasiante! Vibrante, no seu mais puro significado.
A atmosfera espiritual envolveu os jovens e adolescentes como há tempos eu não via desde a minha adolescência em Vitória da Conquista: gente batizada no Espírito Santo, adolescentes profetizando, outros caindo “no poder”, outros pulando, e eu, claro, entrei no “mistério”: chorei, muito emocionado. Não deu para terminar a reunião, que começou às 14h e já havia entrado pelas 18h. E quando o pastor declarou encerrada a reunião, ninguém ousou perder aquela dimensão espiritual. Pelos cantos do sítio, no auditório, no refeitório, nas redes e nos quartos era possível encontrar algum jovem ou adolescente quebrantado, ainda falando “em mistério”. Eu entrei para o meu quarto quase arrebatado…
Fiquei imaginando como seria uma coisa destas em São Paulo. Nossos jovens talvez até se divertissem com o clima, mas a distância da variedade cultural poderia provocar certo desconforto. O horizonte de expectativas de um adolescente do Sudeste parece não ser o mesmo do adolescente baiano. Nossa galerinha de Sampa foca outras coisas, em vistas de seus anseios. Enquanto na Bahia o horizonte é místico, no Sudeste existe uma expectativa asfixiante voltada para outros valores, não menos santos, mas bem menos “emotivos”. Particularmente, eu transito por ambos com a mesma apreciação.
Voltei da Bahia com mais esta concepção em minha bagagem: precisamos respeitar a variedade cultural – desde que não fira os princípios cristãos – para que encontremos o solo no qual a semente da Palavra será lançada. Viva nossa diversidade! Viva nossa riqueza! Viva nossa Bahia! Viva nossa Guarulhos! E cada um viva a sua realidade sem perder a graça – que é tão plural quanto a nossa cultura.









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