(OBS: o texto abaixo foi escrito no ano de 2006, quando o enviei para uma revista de São Paulo e, erradamente, o editor publicou como sendo texto do Pr. Jabes Alencar – ai de mim!)

Vivemos uma época de experiencialismos. Tecnicamente falando, preferimos a ortopraxia à ortodoxia. A sociedade hiper-moderna gosta de valorizar as experiências e estas são difundidas como sendo uma chave para a solução de problemas. “Vamos ver se dá certo”, é o que dizem. Não são raros os e-mails que recebemos de pessoas dizendo: “comigo deu certo: reproduza esta carta e envie para sete amigos…”. Respaldada na suposta experiência, muita gente vai alimentando a esperança de que certos rituais vão resultar na satisfação de seus desejos.
No meio evangélico essa ortopraxia tem sido bem difundida. Igrejas, pregadores, líderes instam para que a comunidade cumpra certos rituais em nome da satisfação de seus desejos. “Se deu certo com alguém, tente você também” – poderia ser este o jargão. Se não falam assim, no mínimo se pratica.
Se alguem perguntar a um lider evangélico carismático dessa geração fantasiosa: “que devo fazer para alcançar tal bênção?”, o líder poderá responder: faça a campanha das sete semanas, leia esta carta (sobre prosperidade) três vezes, leve pra casa um pedacinho dessa madeira que foi tirada da cruz de Cristo, em Israel e oferte – quanto mais, melhor: semeie que dá certo! “Isso funcionou comigo”, garantiria o líder.
Nesse caminho turbulento pessoas vão se frustrando. À margem tem crentes feridos, decepcionados, revoltados com Deus e com todos. Outros, parados à beira da estrada, guardam sentimento de inferioridade por não terem recebido a bênção que o irmão mais espiritual recebeu.
“Que devo fazer… ?” Foi também essa a pergunta do carcereiro quando diante do milagre em que as correntes se soltaram dos presos em Atos 16. Paulo e Silas responderam pura e simplesmente bem: “Crê no Senhor Jesus”. Em outras palavras: “não faça nada sem crer”. Não adianta fazer sem antes crer.
Atitudes tomadas sem a fé são experiencialismo. É pôr em teste o poder de Deus. É pôr à prova a soberania do Senhor. É precipitar-se pináculo abaixo pra ver se os anjos agem. É tentar a Deus.
Tais atitudes ferem o coração de Deus. Não são as campanhas, os rituais evangélicos, o corre-corre frenético do “ré-té-té” que vão resultar em bênçãos. Elas bem que podem ser uma estratégia para medir a disposição e o desejo das pessoas de receberem tal “graça”. Mas jamais terão resultado sem a fé.
A fé é que deve mover as pessoas a tomarem atitudes, especialmente a atitude de se aproximar de Deus. Sem a fé, aproximar-se de Deus torna-se um perigo. Sem fé é impossível agradar-Lhe.
Particularmente sou contra qualquer tipo de mecanismo que, por si mesmo, leve pessoas às igrejas. As pessoas devem ser movidas pela fé. Não uma fé de referências (do tipo: “se deu certo com alguém, vai dar comigo também”). A fé não carece de uma referência anterior. Tenho que crer num Deus que faz o impossível, mesmo que não haja na história qualquer registro.
Antes de fazer, temos que crer. E precisamos aprender a valorizar o pricípio bíblico da fé antes de sacramentar os rituais. Nada tenho contra as campanhas ou os “atos proféticos”, desde que estes não substituam o que é de mais sagrado da comunidade dos santos: sua fé em Deus. Prefiro crer assim: ter fé somente em Deus, e não nos mecanismos humanos.
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