MISSÃO OU AMBIÇÃO?

7 12 2009

(NOTA: O texto abaixo não é o mesmo que meu leitor solicitou. Lamentavelmente, não tenho mais aquele texto. Perdi em algum lugar dos meus arquivos. Este, no entanto, reflete um pouco o que penso sobre o assunto. É um pouco longo, mas vale ler.)


Ambição é desejo. É querer não apenas o que é de direito. É ir além. Ambição força o indivíduo a desrespeitar os limites. Ambição é cobiça, avareza.

A ambição foi severamente condenada por Cristo, aferindo o mandamento mosaico. Apesar disso, ainda assim alguns discípulos foram flagrados com o pecado da ambição. Foi a ambição que levou Judas a trair, a mesma ambição que se apoderou de Ananias e Safira, nos tempos apostólicos. A ambição, enraizada na natureza humana – solidariedade da raça caída – não permitiu nem mesmo a alguns seguidores de Cristo o controle absoluto dessa força maligna. E ainda hoje é assim.

A ambição sufoca, asfixia a Missão. Tem poder de perverter o sentido santo da Obra e colide, afronta, mata.

E não é porque os homens amam a ambição. Parece que não, pelo menos teoricamente. A grande maioria dos homens, cristãos ou não, luta contra ela. Ainda assim seus atos acabam denunciando um quase absoluto descontrole. Há uma raiz inconsciente, uma natureza caída que insta para a ambição.

Nem o simples Frodo (de “O Senhor dos Anéis”) conseguiu ver-se livre do encantamento do poder. O coração do homem é facilmente corrompido. Isso fica muito nítido na metáfora de George Orwell, quando os porcos – movidos pelo desejo de dominar – acabam por escravizar os demais, na Revolução dos Bichos.

A supremacia desse desejo rege o comportamento da maioria. E não isenta a minoria restante de ser tentada por ela. O homem que se entrega aos desejos escusos torna-se escravo da cobiça. Quem bebe desta fonte nunca está satisfeito. Que o digam os políticos.

Nicolau Maquiavel sugeriu como se chegar ao poder independente dos meios. E fez escola. Na boa verdade, Maquiavel teria dito que os fins determinam (e não justificam) os meios. Mas a lição transmitida pelo inconsciente coletivo é mesmo pejorativa. Os políticos aprenderam a usar as armas contrárias à moral, à ética, à cidadania, tudo para satisfazer o prazer de dominar. Os maquiavélicos (no sentido atual do termo) políticos de hoje não respeitam nem mesmo suas mães. Querem o poder a qualquer custo. São capazes de se venderem, ou de comprarem os outros, articulam, armam, mentem, sofismam, agridem o bom senso.

Missão não coaduna com esse sentimento. Missão é desprendimento.

Cristo entregou-se a si mesmo, não usurpou sua Missão. Ele deu o legado da obra e seus seguidores deveriam vencer o desejo latente (ambição) com a arma singela da missão: o amor.

Mas a ambição está acima da missão. Discípulos dos nicolaítas se proliferam, homens que amam posição, querem liderar, extorquir sutilmente. Já têm sentença revelada no Apocalipse de João, mas insistem em perseguir seus desejos, pondo a missão à mercê de seus prazeres.

Enquanto isso, o mundo grita como os tripulantes do navio que seguia para Tarsis. Tempestades psicológicas, tormentas éticas, tsunamis emocionais e crises existenciais acoitam o povo com a violência dos tufões. E os ambiciosos desvairados dormem comodamente no porão, indiferentes a tudo.

Há de ser que novos tempos virão. Alguém será despertado. Não se pode negar a esperança de um novo mover, quando os responsáveis pela missão serão sacudidos, nem que seja no ventre do peixe. E a missão estará acima de qualquer outro interesse.


Ações

Informação

6 respostas

16 02 2010
Pr. Elessandro Baía

Bem sou suspeito em comentar, pois sou “Fã” do Professor Aécio de carterinha…

obrigado Pr. pelas ricas e interessantes materias. continue escrevendo, pois seu Dom de ensinar através do equilibrio e coerencia cristã é de fundamental importancia para o amadurecimento da Igreja Brasileira.

parabens!

shalom

16 12 2009
CLÊNIO CALDAS

Pr. Aécio
A ambição pode enveredar para dois vieses. Um positivo, que busca, aspira, intenta alcançar um objetivo. O outro, negativo, é o desejo intenso de obter fama, poder, riquezas. Uma palavra, dois significados tão diferentes.
Não me proponho ao redigir este sucinto comentário, encaminhar para o lado secular que vive nosso mundo hoje. Seria desnecessário, palavras ao vento.
Prefiro fixar-me no ambiente eclesiástico, no seio da Igreja de Cristo, a qual padece de grave enfermidade, inoculada que foi pelo vírus da ambição desmedida e desenfreada de homens e mulheres que se fazem passar por varões e varoas escolhidos por Deus para apascentar o Seu rebanho e se trasvestem de lobos devoradores, não importando o mal que cause em almas, que, sequiosas por bênçãos, são vítimas de inescrupulosos que até fazem uso indevido e não autorizado da Santa e Bendita Palavra de Deus, para seus maquiavélicos propósitos. E desvirtuam-na, torcem-na, adequando-a aos seus objetivos. Isto não passará despercebido pelo Senhor dos senhores!
Sofro e muito com todo este cabedal de heresias e adultérios das Sagradas Escrituras. Pertenço a uma geração (já em fase de extinção…) em que o nome de Pastor era algo respeitoso e que nos sentíamos amparados pelo Anjo da Igreja. Hoje, o nome de Pastor se tornou quase sinônimo de poder, autoritarismo, absolutismo, despotismo. São cada vez mais raros os varões e varoas que dignificam essa sublime vocação “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. Ambição desmesurada, ânsia pelo poder, pressa em se apoderar de um púlpito para exercer uma autoridade que jamais lhe foi concedida pelo Rei dos reis.
Sim, sou de uma geração que em pouco deixará de existir e que levará consigo para a Glória uma doce recordação de uma Igreja que honrava os seus pastores e estes por ela se consumiam agindo com lisura e responsabilidade como profetas e sacerdotes, dignificando e honrando
sua chamada e santa vocação. Ambição sim, por almas que jazem perdidas sem um Salvador e não ambição por si mesmos e com propósitos que entristecem e envergonham o nome de cristão.

15 12 2009
Angela Santanna

Pr. Aécio, mais uma matéria excelente, parabéns.
Infelizmente não falta pessoas asim dentro da igreja, a ambição é uma doença que está afetando cristãos que não tem um pingo de maturidade e como está bem explicito no texto, existem pessoas que querem a ambição, querem um cargo a qualquer custo, são pessoas fingidas que pensam que ninguém está observando isso e o pior, esquece que Deus está vendo tudo .

14 12 2009
Leandro Sampaio

Obrigado pastor…eh bom saber q ainda ha pessoas na contra mão.grande abraço.

8 12 2009
pastoraecio

Caro Vinícius, belo comentário. Vc avança e surpreende cada vez mais. Lamentavelmente estamos assistindo a cada dia o avanço dessa doença política no meio cristão. No entanto, há ainda remanescentes que primam pela missão. Deus abençoe a estes.

8 12 2009
Vinicius

Eu poderia comentar este texto de muitas maneiras, poderia citar homens cheios de ambição, atletas, políticos, pastores ou até mesmos, chefes, vizinhos e alguns alunos meus… poderia falar do texto de Maquiavel, que é livro de cabeceira de nosso ex-presidente FHC, mas que parece ser muito utilizado pelo atual Lula, poderia fazer uma comparação entre o livro de Orwell e a Revolução Russa de 1917, que foi claramente a ambição acima da missão…
Sou criado no evangelio, quando “moleque” ficava correndo do lado de fora da igreja, e uma vez ou outra o obreiro vinha me dar uns cascudos para eu parar… desde dai eu percebia a presença de oportunistas que querem acima de tudo saciar sua ambição, pessoas que não se importam com outros, apenas com seu desejo. O que me deixa mais triste é que por muitas vezes vejo esse tipo de pessoa ainda hoje e dentro da igreja onde congrego, pessoas que usam véu para conseguir seus objetivos…Por muitas vezes, sou testemunha oculta de coisas que não concordo e quando não me manifesto cometo o mesmo crime de quem a prática inicialmente, é triste ver pessoas que não tem o amor pela obra e pela palavra de Deus, pessoas que acham desculpas em tudo, e colocam defeitos nas coisas que não são feitas por elas, que acreditam que a estética e o cargo são maiores que tudo. Em contrapatida ainda estou no grupo dos que clamam pela missão, que mesmo sem nenhuma expectativa continuam na missão… sou parte deste novo mover que mesmo cheio de obstaculos continuam com uma missão, quero contagiar pessoas com esse desejo pela missão, quero ser um canal de benção imune a toda essa sujeria e imundice pregada pelos amantes da ambição, que se escondem por de traz dos cargos de pastores missionários e obreiros que usam esses “ministérios” com um véu para esconder seu verdadeiro amor pela ambição…

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