DA DIFÍCIL ARTE DE REGER UM CASAMENTO

23 10 2009

Conductor

Sempre fui apaixonado por música. Toquei trompete na adolescência, regi coral na minha juventude, ousei cantar em vocais de jovens e até em madrigais. A paixão pela música me fez determinar que me casaria com alguém que tocasse instrumento. Não deu outra: casei-me com uma pianista.

Temos piano em casa. Não poucas vezes nos deixamos levar pelos ensaios em nossa sala. São momentos que me fazem lembrar os dias de confete quando, ainda solteiro, deixava-me seduzir pelas mãos pequenas e habilidosas do meu amor deslizando as teclas do piano. Aqueles tempos se eternizam a cada ensaio de hoje.

Em um destes nossos momentos, ouvi minha esposa recusar um elogio – quando eu disse que ela canta bem (e Canta, mesmo!). Eu disse a ela que negar este fato seria negar o talento que Deus a entregou. Tal estímulo ajudou muito a minha esposa em sua desenvoltura à frente do louvor na igreja.

Embora tenha todo este apreço por música, de vez em quando me flagro desafinado quando o assunto é ser atencioso. Já perdi momentos preciosos por conta disso. É nesta hora que deixo de reger e minha esposa assume a batuta: a preocupação dela é que minhas desatenções possam gerar frutos podres no contexto de meu ministério. Permito-me à correção.

Não posso negar a necessidade de ter ao meu lado alguém dotada desta habilidade de examinar meus atos. Estaria perdido sem minha esposa, admito! Ela sempre foi um braço decisivo no meu ministério.

Pode parecer poético demais o que estou tecendo nestas linhas, mas devo assegurar que não se trata de historieta. Realmente tenho em casa alguém que me afina quando estou fora do tom – e não são poucas as vezes que isso ocorre.

Não são todas as esposas que conhecem de música, mas devo arriscar que todas elas têm um talento maestro. O homem desafina quase sempre no campo das emoções e carece de esposa que lhe ajuste, desde que seja esposa virtuosa. Mas há outros momentos em que o homem é quem deve exercer esta função. Na regência da casa, o marido deve governar com maestria.

O problema, neste contexto, é que alguns cônjuges se negam à correção, principalmente o homem! – É difícil admitirmos que destoamos, vez por outra. É que os homens pensam que nunca erram: no máximo, se enganam. Aí, aceitar a regência feminina é quase uma questão de somenos. É aí que se faz necessária a virtuosidade da mulher para fazer o homem entender que ninguém é perfeito. O casamento é realmente um lugar maravilhoso para esta exposição!

Não há alguém desprovido de talento. Não há marido, não há esposa.  Valorizar este talento é contribuir com a própria estruturação da casa. É permitir que haja simetria, é conduzir o lar em harmonia. Se for preciso submeter-se à correção, que assim o seja. O reconhecimento do erro é o primeiro passo para uma execução musical perfeita.





O PERDÃO TRAZ A HONRA

19 10 2009

PERDÃO

Namorei 7 anos antes de me casar. Na época, “namoro” ainda era uma palavra sem significados plurais, apenas uma fase gostosa de troca afetiva sob o regime rigoroso estabelecido pelo meu sogro.

Meu namoro era meu véu. Nele eu escondia minhas imperfeições. Todo mundo faz isso, não é privilégio meu.

Quando me casei, há 11 anos, revelei meu lado ruim. Todo mundo tem um – é a natureza do pecado. Minha imperfeição se manifesta dia a dia, até no reparo que ainda não fiz da campainha que quebrou. Minha imperfeição transita da campainha ao quarto. Minha esposa o sabe muito profundamente.

Ela também tem suas imperfeições, mas não me cabe expor aqui. É um privilégio somente meu conhecê-las.

O encontro das imperfeições resulta intempestivamente nas cobranças, na insatisfação e até nas mágoas. Digo sempre que o casamento é o campo onde as imperfeições se manifestam. Cada cônjuge é um instrumento de Deus para mostrar um ao outro sua carência de correção; para estimular um ao outro pela busca do aperfeiçoamento descrito por Paulo aos Filipenses 3.12 a 21.

É no âmbito da imperfeição que o perdão se torna necessário. Não haveria perdão sem transgressão; não haveria transgressão sem imperfeição. E se todos temos este lado negativo das imperfeições, um relacionamento não pode sobreviver sem perdão.

O perdão – tanto para quem pede quanto para quem dá – é um poderoso instrumento de honra. Quando peço perdão, reconheço minha fraqueza. Quando ofereço perdão, enobreço a pessoa perdoada. Ambos somos honrados pelo perdão.

A ausência do perdão – tanto para o agressor quanto para o agredido – é um elemento gerador do orgulho. O orgulho, por si só, revela a fraqueza de caráter.

O perdão é a ferramenta para ajustar as imperfeições. Com o exercício do perdão, as imperfeições vão sendo tratadas. O rancor, a ira, o ódio e a decepção agigantam ainda mais a transgressão. O perdão freia.

Já li muito sobre perdão, conheci muita teoria. Mas nada pode ser mais educador do que a prática. Todos os dias tenho que relevar as imperfeições de minha esposa, vendo nela o que Deus vê – uma pessoa de valor inestimável envolta no manto da imperfeição. Uma vez perdoada, desnuda; e tudo o que tem de maravilhoso se expõe. Isso tem que ser prático, não teórico.

Não é necessário esperar atitude de arrependimento para perdoar. Na cruz, Jesus perdoou seus malfeitores sem que eles demonstrassem arrependimento. Na prática, temos que querer perdoar. Tem que estar disposto, no melhor significado desta palavra. DISPOSIÇÃO é sair de uma posição. Se a posição que você se encontra é a da magoa, dispõe-te. Sai dela e perdoa. Você vai notar que cada perdão oferecido enriquece a tua alma.

Perdão caminha lado a lado com o amor. É o amor que insta para o perdão, como afirmou o sábio: “o ódio excita contendas, mas o amor cobre as transgressões”. Quem ama perdoa. Quem perdoa já provou que ama… e viverão felizes até que a morte os separe.





TOBIAS ESTÁ NO TEMPLO?

14 10 2009

TEMPLO

Tobias me assusta. Ele é o personagem da oposição à restauração dos muros, promovida por  Neemias. Tobias, juntamente com Sambatale e Gesém, conspiraram para que a obra da restauração sofresse solução de continuidade. Está no livro de Neemias, capítulo 6 (da Bíblia).

Mas é o capítulo 13 que me assusta ainda mais. Lá está o registro de que o opositor tinha até um quarto no templo. Fez a cama! Aliás, quem fez a cama para Tobias foi seu parente Eliasibe. Este era sacerdote na Casa do Senhor, mas fora infectado pelo vírus do nepotismo. Parente próximo de Tobias, promoveu a aproximação do opositor.

A chegada de Tobias, pelo que deixa transparecer o texto, foi uma estratégia sutil de impedir a missão: fez sair os utensílios do templo, o azeite, o incenso, a adoração, os dízimos, a oferenda, a alegria. Quando Tobias entra não há espaço para santidade, não há espaço para o temor (Atos 2.43)

Tobias parece ainda manter seu espírito sobre muitos hoje. Os “Eliasibes” da nossa geração abriram as portas para os “Tobias”. Há muito oba-oba, muita agitação, muita algazarra e pouca sinceridade de espírito. O templo foi profanado pelo espírito ambicioso de Tobias, que quer a todo custo fazer sua cama por trás dos púlpitos.

Mas Neemias também mantém seu espírito atuante. E Neemias prima pela restauração, sempre! Sem ter que dar satisfação a alguém, ele jogou fora os móveis de Tobias, trouxe de volta os utensílios sagrados, restituiu os Levitas ao seu posto – sagrando o retorno à adoração, pôs administradores fiéis e desinteressados na riqueza alheia, e fez uma boa obra digna do reconhecimento do Pai.

Precisamos de Neemias, não de Eliasibe. Precisamos de restauração plena, não de inchaço evangélico. Precisamos de sinceridade na nossa postura de servos, que valorizam o culto ao Senhor, que reconhecem seu zelo pela manutenção de seus princípios.

Deus tenha piedade de nós!





EM NOME DA JUSTIÇA

13 10 2009

Gosto do cantor João Alexandre! Gosto de sua voz e de como traduz em sua interpretação um grito preso na garganta. Vale conferir o que ele canta em “Em nome da Justiça”.  Depois de assistir, visite o site “plataforma.art.br” e confira meu vício.





ESCOLA DE DEUS

8 10 2009

deserto

Já falei sobre Moisés algumas vezes. Apontei até sua perspicácia – assinalada pelo Apóstolo Paulo – de pôr o véu sobre o rosto (vd “Precisamos de véu?”). Mas quero me ater hoje a outro curioso detalhe da vida deste patriarca.

Sua vida está dividida em 3 etapas de 40 anos. A primeira, vive Moisés no Palácio. Na escola do Egito, o jovem Moisés aprendeu a lidar com legislação, foi educado nas ciências, era um rapaz formoso, conhecedor do sistema político que regia a nação.

A primeira escola de Moisés forjou um indivíduo “cheio de si”. Tal presunção o faz pensar que estava num degrau acima dos seus consanguíneos hebreus. Moisés diz de si: serei o libertador do meu povo. Embalado pelo ritmo da soberba, vê-se no direito de aplicar justiça com as próprias mãos, matando um egípcio que maltratara um hebreu. Todos se levantam contra Moisés, inclusive seus irmãos. Sobre o fato, o diácono Estêvão opina: “ele (Moisés) pensava que seus irmãos compreenderiam que Deus o estava usando para salvá-los” (Atos 7.25).

Moisés foi obrigado a fugir para as terras de Midiã. Lá, foi matriculado na escola da provação, do deserto. Viveu 40 anos como pastor de ovelhas, até ter uma visão do Deus de fogo que não queima. Exposto à grandeza do Eu Sou, Moisés abriu mão do “eu sei”. Desafiado a voltar para o Egito e libertar seu povo, ele pergunta: “quem sou eu?” (Exodo 3.11). Moisés estava formado numa outra escola – a de Deus.

Nesta escola nós aprendemos que não é nosso talento, nosso conhecimento, nossa habilidade, nossa própria esperteza que nos levam a grandes conquistas. Aprendemos a reconhecer nossas limitações. Aprendemos que somos dependentes do grande Eu Sou. Aprendemos a dizer: “Senhor, Tu o sabes…”

Deus parece apreciar esta escola, e me matriculou nela também. Sinto que estou cursando… Estou nas terras de Midiã. É aqui que reconheço minha parcialidade, minha vulnerabilidade. Aqui tenho feito questionamentos semelhantes ao de Moisés na sarça ardente: quem sou? como posso? por que eu?

O questionamento de Moisés ao se deparar com Deus não foi um desdém ao seu chamado. Não foi uma afronta à vocação. Antes, foi um reconhecimento de que nada podemos fazer, ser ou ter se não for pela maravilhosa Graça. Ainda que tenhamos que trabalhar, como disse o Apóstolo Paulo, tem que ser “Pela graça de Deus”.

A terceira etapa da vida de Moisés é ainda repleta de lições que nos mostram o caráter daquele que foi moldado na escola de Deus. Não me cabe aqui ressaltá-las. Interessa-me, apenas, perguntar: em que escola você se encontra? Permita-se ser usado por Deus, exposto por Deus e levado por Ele mesmo ao cumprimento de seu propósito. Afinal, há grande diferença entre os “chamados pastores” e os “pastores chamados”.

Presente! Senhor!





PRECISAMOS DE VÉU?

5 10 2009

VÉU SOBRE O ROSTO

Todos nós queremos um véu. Até Moisés quis. São muitos os “véus” que colocamos sobre a face para que as pessoas não conheçam nosso verdadeiro rosto. Nosso rosto verdadeiro expõe nossas imperfeições. Assim, temos vários véus, milhares deles, para nos apresentar às pessoas.

O namorado usa sempre o véu da delicadeza. Nunca se apresenta à sua namorada sem o tal véu. O trabalhador, por vezes, põe sobre o rosto o véu da competência. Diante dos amigos, o véu da gentileza e da cordialidade. Na igreja e diante dos irmãos, o véu da santidade. Alguns ousam por este véu (da santidade) até diante do Senhor, que a tudo perscruta.

Paulo, o apóstolo dos gentios, escreveu em sua carta aos Corintianos (!), que os crentes em Cristo não precisam de um véu sobre o rosto. Na teologia paulina, a glória de Deus em nossa face é suficiente para esconder nossas imperfeições. É o que diz 2 Coríntios 3.18: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando como por espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem do Senhor, pelo Espírito”.

É nesta mesma passagem que Paulo expõe Moisés. No versículo 13 o apóstolo diz que Moisés colocava o véu sobre o rosto para que as pessoas não percebessem que a glória de Deus já havia acabado – a glória era o brilho que resplandecia no rosto de Moisés quando ele falava com Deus. Mas o patriarca não queria que o povo percebesse isso, e mantinha sobre o rosto o véu.

Se dermos ouvidos à sugestão de Paulo, talvez viveremos melhor. Talvez sejamos menos hipócritas, menos falsos. Se tirarmos nosso véu, as pessoas verão nossa humanidade caída e imperfeita, carente da glória de Deus. E, se tirarmos nosso véu na presença da Glória, teremos o próprio Deus como nossa Justiça! Teremos a própria Glória no nosso rosto. Nem será necessário maquiagem.

Ao Senhor a Glória!





ÉTICA DO TRABALHO

2 10 2009

O reformador Martinho Lutero teve a ousadia de traduzir a Bíblia do grego para o alemão. Foi nesta tradução que uma palavra ficou marcada: beruf. Os sociólogos que analisam o comportamento protestante, a exemplo de Max Weber, atribuem a esta palavra um valor significativo: esta palavra insta para que cada evangélico cumpra cabalmente sua vocação. Isto mesmo! Lutero proclamou entre seus fiéis que Deus dotou cada indivíduo com uma vocação, de maneira que exercê-la seria um belíssimo instrumento de glorificação a Deus.

O trabalho é o exercício da vocação. Trabalhar, na ótica divina, é cumprir com o propósito para o qual todos foram ordenados. Deus é glorificado quando o homem trabalha.

Lamentavelmente, muita gente aspira pelo não-trabalho. Aliás, a maioria de nós trabalhamos para um dia nos ver livres do trabalho. Domenico DeMasi, sociólogo que se tornou famoso pela sua apologia à ociosidade, garante que pode haver desenvolvimento sem trabalho. DeMasi, no entanto, não defende o ócio inoperante.

Do ponto de vista cristão, não podemos admitir uma ética que não inclua o trabalho. Trabalho, não necessariamente labor. Há uma diferença entre trabalhar e laborar. No Eden, antes do pecado, havia trabalho (Gn 2.15). Depois do pecado, o homem teve que laborar. Deus é glorificado no trabalho. O trabalho é um reconhecimento que Deus dotou cada um de capacidade especial para determinado empreendimento de esforço. Assim, trabalhar é glorificar a Deus.

Deus trabalha, Jesus trabalha e os cristãos devem trabalhar. Não imagine um “céu” de desocupados. Quem assim pensa não deverá ter acesso ao céu. No reino de Deus há trabalho, e todos devemos fazer jus ao chamado divino: trabalhai, enquanto é dia.

EM BREVE: Livro “A ética cristã do Trabalho” – de minha autoria.








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