(NOTA: O texto abaixo não é o mesmo que meu leitor solicitou. Lamentavelmente, não tenho mais aquele texto. Perdi em algum lugar dos meus arquivos. Este, no entanto, reflete um pouco o que penso sobre o assunto. É um pouco longo, mas vale ler.)

Ambição é desejo. É querer não apenas o que é de direito. É ir além. Ambição força o indivíduo a desrespeitar os limites. Ambição é cobiça, avareza.
A ambição foi severamente condenada por Cristo, aferindo o mandamento mosaico. Apesar disso, ainda assim alguns discípulos foram flagrados com o pecado da ambição. Foi a ambição que levou Judas a trair, a mesma ambição que se apoderou de Ananias e Safira, nos tempos apostólicos. A ambição, enraizada na natureza humana – solidariedade da raça caída – não permitiu nem mesmo a alguns seguidores de Cristo o controle absoluto dessa força maligna. E ainda hoje é assim.
A ambição sufoca, asfixia a Missão. Tem poder de perverter o sentido santo da Obra e colide, afronta, mata.
E não é porque os homens amam a ambição. Parece que não, pelo menos teoricamente. A grande maioria dos homens, cristãos ou não, luta contra ela. Ainda assim seus atos acabam denunciando um quase absoluto descontrole. Há uma raiz inconsciente, uma natureza caída que insta para a ambição.
Nem o simples Frodo (de “O Senhor dos Anéis”) conseguiu ver-se livre do encantamento do poder. O coração do homem é facilmente corrompido. Isso fica muito nítido na metáfora de George Orwell, quando os porcos – movidos pelo desejo de dominar – acabam por escravizar os demais, na Revolução dos Bichos.
A supremacia desse desejo rege o comportamento da maioria. E não isenta a minoria restante de ser tentada por ela. O homem que se entrega aos desejos escusos torna-se escravo da cobiça. Quem bebe desta fonte nunca está satisfeito. Que o digam os políticos.
Nicolau Maquiavel sugeriu como se chegar ao poder independente dos meios. E fez escola. Na boa verdade, Maquiavel teria dito que os fins determinam (e não justificam) os meios. Mas a lição transmitida pelo inconsciente coletivo é mesmo pejorativa. Os políticos aprenderam a usar as armas contrárias à moral, à ética, à cidadania, tudo para satisfazer o prazer de dominar. Os maquiavélicos (no sentido atual do termo) políticos de hoje não respeitam nem mesmo suas mães. Querem o poder a qualquer custo. São capazes de se venderem, ou de comprarem os outros, articulam, armam, mentem, sofismam, agridem o bom senso.
Missão não coaduna com esse sentimento. Missão é desprendimento.
Cristo entregou-se a si mesmo, não usurpou sua Missão. Ele deu o legado da obra e seus seguidores deveriam vencer o desejo latente (ambição) com a arma singela da missão: o amor.
Mas a ambição está acima da missão. Discípulos dos nicolaítas se proliferam, homens que amam posição, querem liderar, extorquir sutilmente. Já têm sentença revelada no Apocalipse de João, mas insistem em perseguir seus desejos, pondo a missão à mercê de seus prazeres.
Enquanto isso, o mundo grita como os tripulantes do navio que seguia para Tarsis. Tempestades psicológicas, tormentas éticas, tsunamis emocionais e crises existenciais acoitam o povo com a violência dos tufões. E os ambiciosos desvairados dormem comodamente no porão, indiferentes a tudo.
Há de ser que novos tempos virão. Alguém será despertado. Não se pode negar a esperança de um novo mover, quando os responsáveis pela missão serão sacudidos, nem que seja no ventre do peixe. E a missão estará acima de qualquer outro interesse.
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